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Curitiba merchandizing: os postes, Recalcatti e a violência

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Dos postes-araucárias às luminárias republicanas No mês de outubro, Curitiba foi eleita a melhor cidade do país para se viver. A pesquisa promovida pela Agência Classificadora Austin Ratings e pela Revista IstoÉ ,  " avaliou 212 indicadores relacionados às áreas social, econômica, fiscal e digital, com foco na igualdade das oportunidades entre os habitantes das cidades. ". Curitiba sempre figura nesses rankings e tem destaque nas disputas internacionais. No dia 19, inclusive, ficou em segundo lugar na disputa pela capital mundial do design , perdendo para a Cidade do México. Mas será que isso é verdade? Por que Curitiba consegue sempre participar dessas competições e, às vezes, ganhar? A pergunta formulada no refrão da música Cidade Holograma , do grupo de rap curitibano dos anos 1990 Comunidade Racional, confrontava essa ideia: " Cidade propaganda, cidade sorriso, Curitiba, ha ha, onde está o paraíso? ". Críticas à ideia de que Curitiba é uma cidade sem problema...

Rua São Francisco e a falsa polêmica: que tipo de vida o centro tem?

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Foto de Dayana Luiza Hoje, 28 de setembro, o jornal Gazeta do Povo publicou a seguinte reportagem sobre a Rua São Francisco: A rua com vocação para a boemia e para a polêmica , de Felippe Aníbal e Marcelo Andrade. O tema é recorrente no jornal e o debate é escancarado para os frequentadores. Embaixo, no chão noturno dessa rua histórica, jovens, universitários e periféricos, maconha, tabaco, álcool, música, conversa, namoradas, namorados. Em cima, pendurada entre prédios da viela, uma faixa assinada pelos moradores e comerciantes agradecendo as ações da Guarda Municipal e da PM. E essas ações consistem em abordagens violentas, com a presença de cães farejadores e armas apontadas. Existe uma disputa em torno da São Francisco, seu significado e sua utilização. Essa disputa possui diversas contradições e tem relação direta com a vocação histórica e social da Rua e com seu projeto de revitalização, a política de urbanismo projetada recentemente para ela. A partir de 2009, a Prefeit...

Bolsonaro e Comissão da Verdade - Tortura, ontem e hoje: EUA e Brasil apresentam relatórios sobre ofensas à direitos humanos

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A prática de tortura parece, a primeira vista, ser tema de estudos sobre a Idade Média e os suplícios da inquisição. No entanto, não existe tema mais atual. Dois relatórios apresentados essa semana recolocam o assunto em debate: o relatório apresentado no dia 9/12 pela Comissão da Verdade, sobre os crimes contra a humanidade cometidos durante a Ditadura Militar brasileira, e o relatório do Senado dos EUA sobre as práticas interrogatórias da CIA, apresentado no dia 8/12. É quase coincidência o lançamento desses relatórios na mesma semana. A relação entre Brasil e Estados Unidos, Ditadura Militar e CIA, é direta no que diz respeito à tortura. Em seu livro “ A Doutrina do Choque ”, a jornalista canadense, Naomi Klein, traz documentos e informações reconhecidas pelo governo americano de que a CIA desenvolveu a partir dos anos 1950 um manual de tortura chamado Kubark , que apresenta técnicas de interrogatório baseadas no choque elétrico, privação de sentidos, terror pscicológico e violênc...

O filme Annabelle: o machismo e o medo de falhar enquanto mãe

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Este ano foi lançado o longa de terror Annabelle, do diretor John R. Leonetti. O enredo se passa nos anos 1960 e trata de jovens recém-casados, o médico, John Form, e a dona de casa, grávida do primeiro filho, Mia Form.  Logo no começo do filme, os futuros pais têm uma conversa desagradável, na qual John se diz preocupado com a situação "aterradora" e "desafiadora" do casamento e da paternidade. Após a discussão, sentido-se culpado, John presenteia Mia com uma boneca especial, que completava sua coleção de bonecas de porcelana. Na mesma noite, eles são atacados violentamente por Annabelle Higgins e o namorado, envolvidos em seitas ocultistas. Mia quase perde seu bebê, mas a polícia chega a tempo de salva-los e matar o homem no instante em que iria matar John. Annabelle se suicida logo antes da polícia chegar, segurando em seus braços, como um bebê, justamente a boneca que Mia havia ganhado aquele dia.  A cena mostra o sangue da mulher caindo nos olhos da boneca, sug...

A Ilha do Medo: o poder de um spoiler e leia o filme de modo literal

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Apenas recentemente assisti ao thriller Ilha do Medo (Shutter Island), de 2010, do diretor Matin Scorcese, estrelando Leonardo Di Caprio. O filme é muito bem dirigido e produzido, com fotografia e trilha sonora incríveis, além de um roteiro muito bom. À primeira vista, a narrativa parece simples: investigador busca paciente de clínica psiquiátrica que desapareceu. Vai encontrando pistas de uma conspiração macabra. Na verdade, descobre que ele era o paciente e que toda essa investigação era uma encenação que buscava trazer-lhe a cura. Essa virada na narrativa seria o grande trunfo do filme. Porém, podemos ir além na interpretação. O motivo pelo qual demorei tanto para ver esse filme foi que alguém me deu um spoiler dessa virada fundamental da narrativa. Quando assisti, já sabia como o filme iria terminar.  Aqui cabe uma reflexão, pois, ao invés desse conhecimento prejudicar, ajudou na minha interpretação. Não podemos cair na ilusão de que a supresa do filme é o fundamental e que est...

Bastardos Inglórios e Django Livre: duas versões do mesmo filme.

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--> No filme “Lost Highway” (1997), Estrada Perdida em português, do diretor David Lynch, conta-se a narrativa de um homem (Bill Pullman) que, atormentado por seu fracasso sexual e afetivo para com sua esposa (Patricia Arquette) a assassina violentamente. Depois de preso, o protagonista entra em sua fantasia, mostrando como em sua visão ocorreu o crime brutal. Nessa fantasia, tanto o homem quanto sua esposa alcançam o máximo em desejo e sexualidade. O obstáculo a sua realização plena torna-se externo a ele, uma outra pessoa, Mr. Eddy (Robert Loggia), uma espécie de mafioso que controla a vida da mulher fatal Patricia Arquette. Assim, para acabar com o obstáculo e lutar contra a frustração da impossibilidade de dominar o desejo feminino, o protagonista assassina Mr. Eddy. Na realidade, sua vontade de dominação, que em sua fantasia é barrada por algo externo, volta-se contra a sua própria esposa, a quem mata de verdade. David Lynch constrói sua narrativa de modo muito interess...

Breves Considerações Críticas de Os Juristas como Couteiros: a ordem na Europa Ocidental dos Inícios da Idade Moderna – António Manuel Hespanha

O texto critica de forma muito competente os problemas do projeto racionalista e suas consequências no âmbito jurídico no colonialismo, mostrando as diferenças de tratamento dos povos dominados no colonialismo da época das grandes navegações (na América, sobretudo) e do Novo Colonialismo (na Áfria, principalmente). Sua crítica vai no sentido de que o universalismo do projeto racionalista seria o culpado pelo autoritarismo que soverteu a tradição dos povos nativos dominados e foi o motivo da expansão europeia e dominação dos povos, considerados inferiores. Propõe o texto um direito couteiro e não jardineiro, um que não imponha um projeto universalista, mas apenas traduza a ética cacofônica do pluralismo atual. Porém, ao contrário, a atitude de couteiro parece ser justamente a atitude verdadeiramente “moderna”, a atitude ideológica fundamental do modo de acumulação flexível do capitalismo vigente. Segundo Slavoj Žižek , a lógica de consumo atual é a do café sem cafeína, da cerveja sem ...