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Bolsonaro e Comissão da Verdade - Tortura, ontem e hoje: EUA e Brasil apresentam relatórios sobre ofensas à direitos humanos

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A prática de tortura parece, a primeira vista, ser tema de estudos sobre a Idade Média e os suplícios da inquisição. No entanto, não existe tema mais atual. Dois relatórios apresentados essa semana recolocam o assunto em debate: o relatório apresentado no dia 9/12 pela Comissão da Verdade, sobre os crimes contra a humanidade cometidos durante a Ditadura Militar brasileira, e o relatório do Senado dos EUA sobre as práticas interrogatórias da CIA, apresentado no dia 8/12. É quase coincidência o lançamento desses relatórios na mesma semana. A relação entre Brasil e Estados Unidos, Ditadura Militar e CIA, é direta no que diz respeito à tortura. Em seu livro “ A Doutrina do Choque ”, a jornalista canadense, Naomi Klein, traz documentos e informações reconhecidas pelo governo americano de que a CIA desenvolveu a partir dos anos 1950 um manual de tortura chamado Kubark , que apresenta técnicas de interrogatório baseadas no choque elétrico, privação de sentidos, terror pscicológico e violênc...

O filme Annabelle: o machismo e o medo de falhar enquanto mãe

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Este ano foi lançado o longa de terror Annabelle, do diretor John R. Leonetti. O enredo se passa nos anos 1960 e trata de jovens recém-casados, o médico, John Form, e a dona de casa, grávida do primeiro filho, Mia Form.  Logo no começo do filme, os futuros pais têm uma conversa desagradável, na qual John se diz preocupado com a situação "aterradora" e "desafiadora" do casamento e da paternidade. Após a discussão, sentido-se culpado, John presenteia Mia com uma boneca especial, que completava sua coleção de bonecas de porcelana. Na mesma noite, eles são atacados violentamente por Annabelle Higgins e o namorado, envolvidos em seitas ocultistas. Mia quase perde seu bebê, mas a polícia chega a tempo de salva-los e matar o homem no instante em que iria matar John. Annabelle se suicida logo antes da polícia chegar, segurando em seus braços, como um bebê, justamente a boneca que Mia havia ganhado aquele dia.  A cena mostra o sangue da mulher caindo nos olhos da boneca, sug...

A Ilha do Medo: o poder de um spoiler e leia o filme de modo literal

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Apenas recentemente assisti ao thriller Ilha do Medo (Shutter Island), de 2010, do diretor Matin Scorcese, estrelando Leonardo Di Caprio. O filme é muito bem dirigido e produzido, com fotografia e trilha sonora incríveis, além de um roteiro muito bom. À primeira vista, a narrativa parece simples: investigador busca paciente de clínica psiquiátrica que desapareceu. Vai encontrando pistas de uma conspiração macabra. Na verdade, descobre que ele era o paciente e que toda essa investigação era uma encenação que buscava trazer-lhe a cura. Essa virada na narrativa seria o grande trunfo do filme. Porém, podemos ir além na interpretação. O motivo pelo qual demorei tanto para ver esse filme foi que alguém me deu um spoiler dessa virada fundamental da narrativa. Quando assisti, já sabia como o filme iria terminar.  Aqui cabe uma reflexão, pois, ao invés desse conhecimento prejudicar, ajudou na minha interpretação. Não podemos cair na ilusão de que a supresa do filme é o fundamental e que est...

Bastardos Inglórios e Django Livre: duas versões do mesmo filme.

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--> No filme “Lost Highway” (1997), Estrada Perdida em português, do diretor David Lynch, conta-se a narrativa de um homem (Bill Pullman) que, atormentado por seu fracasso sexual e afetivo para com sua esposa (Patricia Arquette) a assassina violentamente. Depois de preso, o protagonista entra em sua fantasia, mostrando como em sua visão ocorreu o crime brutal. Nessa fantasia, tanto o homem quanto sua esposa alcançam o máximo em desejo e sexualidade. O obstáculo a sua realização plena torna-se externo a ele, uma outra pessoa, Mr. Eddy (Robert Loggia), uma espécie de mafioso que controla a vida da mulher fatal Patricia Arquette. Assim, para acabar com o obstáculo e lutar contra a frustração da impossibilidade de dominar o desejo feminino, o protagonista assassina Mr. Eddy. Na realidade, sua vontade de dominação, que em sua fantasia é barrada por algo externo, volta-se contra a sua própria esposa, a quem mata de verdade. David Lynch constrói sua narrativa de modo muito interess...

Breves Considerações Críticas de Os Juristas como Couteiros: a ordem na Europa Ocidental dos Inícios da Idade Moderna – António Manuel Hespanha

O texto critica de forma muito competente os problemas do projeto racionalista e suas consequências no âmbito jurídico no colonialismo, mostrando as diferenças de tratamento dos povos dominados no colonialismo da época das grandes navegações (na América, sobretudo) e do Novo Colonialismo (na Áfria, principalmente). Sua crítica vai no sentido de que o universalismo do projeto racionalista seria o culpado pelo autoritarismo que soverteu a tradição dos povos nativos dominados e foi o motivo da expansão europeia e dominação dos povos, considerados inferiores. Propõe o texto um direito couteiro e não jardineiro, um que não imponha um projeto universalista, mas apenas traduza a ética cacofônica do pluralismo atual. Porém, ao contrário, a atitude de couteiro parece ser justamente a atitude verdadeiramente “moderna”, a atitude ideológica fundamental do modo de acumulação flexível do capitalismo vigente. Segundo Slavoj Žižek , a lógica de consumo atual é a do café sem cafeína, da cerveja sem ...

A História Retrospectiva: a dubiedade narrativa entre o senhor e o escravo.

A história do povo de Israel narrada no antigo testamento da Bíblia é impressionante . Um povo que viveu como escravo no Egito durante a maior parte dos quatrocentos e trinta anos que viveu nessa região e que, libertado por seu Deus, sob a liderança de Moisés, venceu diversos reinos inimigos e construiu uma grande civilização. Trata-se de uma história de redenção, uma volta por cima, em que uma nação de escravos se torna uma grande nação de senhores. Narrativas similares são relativamente comuns em contos épicos de povos grandiosos. Os romanos, por exemplo, seguem uma linearidade parecida. Derrotados da guerra dos gregos contra Tróia, Enéas lidera os sobreviventes troianos e os transporta para a Itália (terra de onde originariamente vieram os fundadores de Tróia). Na Itália, os descendentes de Enéas e seu filho Iulo vencem territórios e instituem os costumes dos deuses, sendo Rômulo e Remo seus descendentes diretos . Roma se torna um imenso império que suplanta a vitória da Gréci...

O profano e o épico da Ilíada na arte contemporânea

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O livro épico "Ilíada" de Homero tem como tema principal não a guerra da Troia propriamente dita, mas sim o conflito interno que se passou entre o povo grego no meio desta guerra, mais especificamente, a rixa entre Agamêmnon, o rei dos Aqueus, e Aquiles, seu maior herói. O que Homero pede que a deusa lhe cante é "do Peleio Aquiles a ira tenaz...", confome os primeiros versos da obra. Em sua época, o escrito era considerado sagrado, era a "deusa" que havia inspirado o texto, que continha vários detalhes sobre o agir das dinvindades do Olimpo, assim como sobre o comportamento das pessoas nesse período e dessa cultura. Todavia, sob uma ótica retrospectiva, com nossos olhos contemporâneos, é possível afirmar que a Ilíada trata de um tema mundano, profano, que é a simples briga entre duas personagens, rixa até mesquisa, uma vez que custou a vida de muitos. Porém, a obra descreve de maneira épica esse tema profano, inserindo-o num contexto e numa narrativa extre...